" Caminho para o infinito "
Era noite de domingo, ou talvez de sábado. As escadas do metro cheiravam a urina. Estava a chover. O tempo parou. Restava só um passo para o infinito…
Quando vives numa cidade com 11 milhões de habitantes é muito fácil entrar num caminho escuro, cheio de fantasmas . É um caminho de esquecimento.
Uma miuda de 15,talvez 16 anos , cabelo loiro, olhos azuis profundos como o mar , alta , esguia. Ela percorria o caminho, e cada passo que dava aproximava-se a ruína total.
Tudo começou num dia em que decidiu sair á noite. As luzes vinham de encontro com ela. A felicidade infinita enchia-lhe a alma. Tudo parecia agradável. Dançava ao som de música sem reparar em nada. O primeiro cachimbo teve um efeito magnífico. Foi assim que descobriu um refúgio para todos os seus problemas.
Na semana seguinte voltou a sair, e com essa síida a alegria voltou. E assim continuou durante algumas semanas , até que descobriou uma nova dimensão de felicidade na forma de um saquinho de plástico. Era LSD. O efeito não se podia comparar com o anterior. A leveza invadio-lhe o corpo , estava nas nuvens. Luzes quentes e agradáveis vinham ter com ela. Mas ela sentia-se aterrorizada. As pessoas pareciam-lhe horríveis, olhavam-na de cima a baixo. Correu para a casa de banho, olhou para o espelho, e pensou “isto não é o meu mundo, eu sou diferente”.
Durante algum tempo não tomou nada, mas a sua necessidade falava mais alto. As saídas recomeçaram as mãos voltaram a encher-se de comprimidos. Conseguia modelar o seu estado de espírito conforme o que tomava.
Quando se sentia ansiosa tomava ácidos, quando queria ficar sozinha tomava calmantes.
A dose aumentava cada vez mais, pois os “rebuçados” já não faziam tanto efeito. As suas viagens quase sempre eram iguais, apenas as cores mudavam. As hipóteses de sair daquele mundo eram casa vez mais remotas. Ao contrário do início, a miúda já tinha consciencia do que fazia e conhecia as consequências, mas isso não a impedia de continuar.
Entrou numa escuridão total, onde os dias eram sempre monótonos. Para ela um “rebuçado” era a felicidade infinita.
Entretanto criava amizades que mais tarde iriam determinar o seu destino. Um dia não foi para a discosteca, como do costume. Decidiu ir ter com os amigos que já estavam numa outra dimensão. Na opinião dela, os amigos eram muito superiores a ela. Eram tipos frios e seguros de si.
Eram viciados em heroína. Eles levaram-na para um esquina, ela decidiu comprar uma dose.
Estava ansiosa para ser como eles, fria e segura de si. A ideia do efeito que a heroína produzia era muito distante da realidade, embora surpreendente, não era aquilo de que ela estava á espera. A frieza atingiu-lhe até a alma, e ao mesmo tempo a felicidade invadiu-a. Já não sabia o que importava ou não, e nem queria saber. Julgava ter encontrado o refúgio ideal. Durante alguns dias manteve essa sensação de felicidade até o efeito passar. Precisava de mais, não fisicamente mas psicologicamente. O seu maior desejo era voltar ao seu refúgio.
Os dias passaram a ter um único objectivo: arranjar dinheiro para mais uma dose. Passou a roubar, a pedir no metro e na rua, fazendo todos os possiveis e impossiveis para arranjar mais dinheiro. Aspirar heroína já não era o suficiente, queria algo mais. Queria levar a sua picada da sorte, a sua primeira picada.
Sentia curiosidade, mas ao mesmo tempo medo. Já era de noite. O metro estava fechado. Sentou-se nas escadas e preparou tudo. Já conhecia o ritual de o ter visto tantas e tantas vezes. Demorou algum tempo para achar a veia e finalmente achou… Deu um passo até ao infinito.
A sua alma ficoi negra. Já não tinha sentimentos. Os seus sonhos eram sempre belos. A única coisa que nunca brilhara era a heroína.
Era uma noite de domingo, ou talvez de sábado…